
Estive há pouco em uma conferência internacional cujo tema era a Sustentabilidade Empresarial. O que tenho a dizer sobre ela é que foi muito boa, com plenárias brilhantemente conduzidas por grandes especialistas de todo o mundo (do ocidente ao oriente).
Entretanto, o que me despertou o interesse pelo registro deste post não foi a proeminência dos conferencistas, nem a abordagem oportuna de temas relevantes e atuais. O que provocou a reflexão aqui resumida foram as estatísticas que apresento a seguir: As seis plenárias que tive oportunidade de assistir foram compostas por 28 especialistas, entre palestrantes e mediadores, dentre os quais havia apenas 6 mulheres. Os 22 homens restantes tinham idade média (aparente) de 60 anos. Diante deste fato me permiti as seguintes divagações:
1. Ora, quem, se não esta geração de homens em torno de seus 60, tomou as decisões que conduziram (ou pelo menos aceleraram) o processo de esgotamento das condições sistêmicas para a sustentabilidade da vida humana no planeta? Uma vez que são os próprios que estão à frente da discussão acerca das mudanças necessárias nos paradigmas de gestão empresarial, me pergunto: Será este movimento inspirado por uma percepção autêntica da necessidade de mudança ou pelo sentimento de culpa dessa geração, que começa a ver seus netos crescendo nesse mundo com poucas perspectivas de longo prazo??
2. Será que as particularidades essencialmente femininas (como o uso predominante do lado direito do cérebro) não são úteis ao movimento que se pretende gerar? Será que não há mulheres de igual (ou superior) talento e capacidade técnica para discutir o tema?
Olá Sérgio!
Muito interessantes seus questionamentos. Acho que este movimento das empresas em se tornarem essencialmente sustentáveis, o que inclui mudanças nas formas de geri-las, está num crescente muito bom e importante para a situação socioambiental a que estamos condicionados, e somos causadores, hoje.
Contudo, questiono-me se a participação de senhores por volta de 60 anos, liderando os fóruns e debates sobre os temas de mudanças na gestão empresarial, não seria também fruto de uma onda ou modismo ainda, já que as temáticas sustentabilidade e gestão responsável estão em alta, e a caminhada para uma consciência responsável está apenas começando. Imagino que possa haver uma cosciência das pessoas em relação à real necessidade de transformação para uma vida mais consciente e respeitosa com os limites da natureza, mas ainda este é um processo muito novo e não é bem compreendido pela nossa geração. Pois, a cultura do consumo desta sociedade não estava acostumada a abrir espaços para reflexões que possam diminuir o lucro, não é mesmo? Mas não concordo que os investimentos corporativos para uma gestão responsável sejam fruto de culpa da geração dos anos 1950 ou 60, pois já era sabido desde essa época que os recursos naturais eram, e são, escassos e deviam ser utilizados com moderação…
Também acho que o público feminino é composto de muitas cabeças pensantes e formadoras de opinião. Isso é um fato inquestionável. Acho que há outro motivo para os palestrantes e mediadores do evento que você foi terem sido, em sua maioria, homens. As mulheres são muito capazes de transformar situações vigentes com suas particularidades femininas surpreendedoras. Não posso afirmar cientificamente, mas observações do cotidiano mesmo (o que já é considerado um método de pesquisa) demostram que por trás de um bom homem existe sempre uma grande mulher que impulsiona as transformações e tomadas de decisões de seu sexo oposto. Talvez as mulheres ainda sofram um pouco no mundo dos negócios devido ao machismo. Pois fato é que avançamos muito em relação à disparidade homem-mulher, mas a religião e outras culturas reforçam as supostas disparidades de poder e o machismo sem maior explicação.
O que você acha?
interessantes suas reflexões sobre a experiência vivida nesse encontro. Sobre os dois pontos levantados faço as seguintes ponderações:
A conclusão acerca da “responsabilidade” dos palestrantes com o cenário atual de degradação do meio ambiente parte da análise do histórico de cada um, ou apenas de uma correlação entre os momentos de intensificação da pressão por recursos naturais no Brasil e a idade produtiva de cada um deles. quero dizer, sua conclusao foi tomada a partir de uma análise pessoal ou geracional? espero a resposta para tecer minhas considerações sobre esse ponto.
sobre a observação da baixa participação das mulheres como mediadoras, acho que o quadro observado por você reproduz muito bem um ponto que é observado em outros campos da nossa vida social, política e econômica, como por exemplo, a participaçao delas nos espaços de decisões políticas, na direção de grandes empresas, etc. Nessa mesma linha fico confortável em afirmar – mesmo sem ter estado presente – que desses 28 mediadores poucos eram negros. também suponho que a grande maioria seja procedente do eixo sul-sudeste brasileiro.
Isso nos leva a concluir que ainda há grandes campos a serem explorados quando se discute sustentabilidade. Muito além da conscientização sobre o consumo, mudanças de hábitos cotidianos, adoção novas tecnologias na produção em larga escala, temos que ampliar a participação nos espaços decisórios a grupos e/ou segmentos da sociedade até então marginalizados ou, pelo menos, desprestigiados. A perspectiva de construção de uma sociedade sustentável depende fundamentalmente do envolvimento das mais diversas pessoas não só no acolhimento e reprodução desse discurso, mas principalmente na vanguarda do pensamento desse novo mundo que se pretende construir.
deixo um comentário ao meu comentário. Após uma segunda leitura do texto “quem é legítimo?” vi que o autor deixou bem claro que considera a GERAÇÃO responsável pelo cenário que temos hoje, como se lê na seguinte passagem do texto original
“Ora, quem, se não esta geração de homens em torno de seus 60, tomou as decisões que conduziram …” ,
com isso está esclarecida a primeira indagação proposta em meu comentário anterior.
abraços!